Como o Homo sapiens conquistou o planeta
Há 70.000 anos, o Homo sapiens era uma espécie africana relativamente sem destaque, restrita ao continente africano e ameaçada pela erupção do vulcão Toba, que pode ter reduzido nossa população a apenas alguns milhares de indivíduos. Hoje, somos 8 bilhões de pessoas espalhadas por todos os continentes habitáveis da Terra. O que aconteceu?
A história da expansão humana é uma das mais extraordinárias, e controversas, da biologia e da arqueologia.
A grande saída da África
Os registros genéticos e fósseis indicam que grupos de Homo sapiens começaram a sair da África em ondas, com a mais significativa ocorrendo há cerca de 60.000 a 70.000 anos. Por que saíram? Provavelmente uma combinação de crescimento populacional, mudanças climáticas que abriram corredores migratórios e, talvez, a necessidade de seguir as rotas das presas que caçavam.
A rota mais aceita leva os primeiros migrantes pelo leste da África, cruzando o estreito de Bab-el-Mandeb (entre o Chifre da África e a Península Arábica) e adentrando o sul da Ásia.
O que nos deu vantagem sobre outros hominídeos?
Quando o Homo sapiens chegou a novos territórios, invariavelmente encontrou outras espécies humanas que já viviam lá. Os Neandertais na Europa e no Oriente Médio, os Denisovanos na Ásia, o Homo erectus em partes do sudeste asiático. Todos entraram em extinção após a chegada do sapiens.
O que nos tornava diferentes? Yuval Noah Harari, em Sapiens, propõe que a chave foi a Revolução Cognitiva, uma mudança nas capacidades mentais ocorrida há cerca de 70.000 anos que permitiu ao sapiens criar e compartilhar ficções coletivas em larga escala.
A Revolução Cognitiva
Outros animais cooperam, mas em grupos pequenos e apenas com indivíduos que conhecem pessoalmente. O sapiens aprendeu a cooperar com estranhos, em números potencialmente ilimitados, através de crenças compartilhadas: religiões, leis, dinheiro, nações.
Um Neandertal provavelmente não conseguia reunir um exército de mil indivíduos que nunca se viram antes. O sapiens podia. E essa capacidade de organização coletiva em larga escala foi uma vantagem avassaladora.
O custo da conquista
A expansão do sapiens não foi inócua. Há fortes evidências de que a chegada humana a novos continentes coincidiu com ondas de extinção da megafauna local. Na Austrália, cerca de 90% dos grandes mamíferos desapareceram após a chegada humana. Nas Américas, cavalos, mamutes e mastodontes foram extintos pouco depois da colonização humana.
Extinções ligadas à expansão humana
- Austrália (50 mil a.C.): Diprotodonte (marsupial do tamanho de um rinoceronte), tigre-da-Tasmânia, wombat gigante
- Américas (13 mil a.C.): Mamute, mastodonte, cavalo americano, preguiça-gigante, gliptodonte
- Ilhas do Pacífico (1.000 d.C.): Moa (ave de 3 metros), águia de Haast, diversas espécies endêmicas
Somos, em parte, uma espécie de conquistadores. Entender isso não é motivo de vergonha, mas de consciência, sobre o impacto que nossa espécie tem e sempre teve sobre os ecossistemas que habita.
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